Como mixar sua 808 - Tudo o que aprendi em anos produzindo Trap [por Duds MDB]



Artigo elaborado pelo produtor Duds MDB - clique e conheça o trabalho! 


Se existe um elemento que define a sonoridade do trap moderno, esse elemento é a 808.

Ela deixou de ser apenas um grave para se tornar praticamente um instrumento principal dentro da produção. Em muitas músicas, é ela quem dita o groove, a força e até mesmo a identidade do beat. Basta ouvir artistas como Travis Scott, Future, Pop Smoke, Matuê, Teto, Veigh, WIU ou Derek para perceber que a 808 ocupa um espaço gigantesco dentro da mix.

Mas, ao mesmo tempo em que parece simples, ela também costuma ser um dos maiores desafios para produtores iniciantes. Vejo muita gente tentando resolver problemas da 808 adicionando mais plugins, mais compressores e mais equalizações, quando, na verdade, o segredo quase sempre está no contrário: entender o que realmente precisa ser feito e evitar processamentos desnecessários.

Ao longo de mais de duas mil produções musicais, fui mudando bastante minha forma de trabalhar. No começo, eu acreditava que uma boa mixagem era aquela cheia de plugins. Hoje penso exatamente o oposto.

Quanto menos eu preciso processar uma 808 para que ela soe pesada, melhor provavelmente foi a escolha da amostra e mais equilibrada está a produção.

Neste artigo quero compartilhar a filosofia que utilizo atualmente para mixar 808s. Não existe uma configuração universal nem uma cadeia de plugins que funcione para todas as músicas, mas existem princípios que praticamente sempre entregam resultados melhores.


Como mixar sua 808 - Tudo o que aprendi em anos produzindo Trap [por Duds MDB]
 Como mixar sua 808 - Tudo o que aprendi em anos produzindo Trap [por Duds MDB]


A qualidade da mix começa antes dos plugins

O primeiro erro que vejo é acreditar que qualquer 808 pode ser transformada em uma 808 profissional através da mixagem. Não pode. A escolha da amostra influencia muito mais o resultado final do que qualquer plugin.

Hoje existem inúmeros kits produzidos por beatmakers e engenheiros que já entregam 808s extremamente bem trabalhadas. Muitas delas já passaram por saturação, clipping, compressão e até equalização antes mesmo de chegarem ao seu projeto.


Isso significa que você talvez nem precise repetir todo esse processamento.


Antes de abrir qualquer plugin, faça uma pergunta simples: Essa 808 realmente precisa de alguma coisa?


Ouça ela sozinha. Depois escute dentro do beat.


Se ela já possui peso, definição e conversa bem com os outros elementos, provavelmente você só precisará fazer pequenos ajustes. Muitas vezes o melhor processamento é justamente não processar.


Entenda a relação entre o kick e a 808:

Na minha opinião, esse é o ponto mais importante de toda a mixagem de trap. O problema normalmente não é fazer a 808 soar forte. O problema é fazer a 808 dividir espaço com o kick.

Quando ambos brigam exatamente na mesma região de frequência, acontece aquilo que muita gente chama de grave embolado. O kick perde impacto. A 808 perde definição.

E a música inteira parece menor.

Por isso gosto de pensar que kick e 808 precisam funcionar como uma equipe. Dependendo da produção, deixo o kick dominar mais o ataque enquanto a 808 segura o subgrave.

Em outras músicas acontece justamente o contrário. Não existe regra fixa. Existe equilíbrio.

Quando percebo conflito, normalmente trabalho equalizando melhor. Faço pequenos cortes na região onde o kick precisa aparecer, preservando toda a força da parte mais grave da 808.

E, existem ótimos equalizadores gratuitos para você usar. Se quiser conhecer alguns, pode clicar aqui para ver alternativas no PluginsVSTGratis.

Essa pequena decisão costuma trazer muito mais punch do que simplesmente aumentar volume. Equalizador serve para corrigir problemas

Existe uma frase que levo para praticamente toda mixagem: O equalizador não foi criado para reconstruir um som. Ele existe para resolver problemas.

Muitos produtores começam adicionando boosts enormes em 50 Hz, 80 Hz, 120 Hz... O resultado normalmente é uma 808 exagerada, sem definição e que ocupa espaço demais na música.


Meu primeiro movimento quase sempre é procurar o que está atrapalhando.

  • Existe alguma ressonância?
  • Existe excesso em determinada frequência?
  • Existe conflito com outro instrumento?


Depois disso faço pequenos cortes.


Na maioria das vezes um corte discreto produz muito mais resultado do que um aumento gigantesco de ganho. É impressionante como pequenas decisões deixam espaço para que toda a bateria respire melhor.


Prefira equalizações largas e naturais. Quando realmente preciso adicionar peso, gosto de utilizar curvas largas. Equalizações extremamente estreitas costumam criar um comportamento artificial e podem fazer a 808 parecer menos musical.


Por isso gosto bastante de equalizadores inspirados em equipamentos clássicos, principalmente modelos no estilo Pultec. Eles permitem reforçar determinadas regiões do grave de maneira muito mais suave.

O objetivo nunca é transformar completamente o timbre. É apenas destacar aquilo que já existe.

Quando a equalização é feita dessa maneira, a 808 continua soando natural mesmo depois de bastante volume.


Saturação faz muito mais do que distorcer

Uma das maiores descobertas que tive foi entender que uma 808 pesada não depende apenas do subgrave. Na verdade, boa parte da sensação de presença vem dos harmônicos.


É justamente aí que entra a saturação.


Quando utilizada com moderação, ela cria novas frequências acima do subgrave, permitindo que a 808 continue sendo percebida até mesmo em celulares, notebooks e pequenas caixas Bluetooth.

Sem esses harmônicos, muitas vezes você praticamente perde a 808 em sistemas menores. Mas existe um detalhe importante.

Mais saturação nem sempre significa mais peso. Em excesso, ela destrói justamente aquilo que torna uma boa 808 especial.

Normalmente pequenas quantidades já fazem toda diferença.


O clipper virou uma das ferramentas mais importantes do trap

Se existe um plugin que utilizo praticamente em todas as produções atuais é o clipper. Durante muito tempo eu recorria diretamente ao limiter sempre que precisava controlar picos.

Hoje prefiro utilizar clipping antes. O clipper consegue reduzir transientes de maneira muito mais transparente, preservando boa parte do punch.

Isso permite elevar a sensação de peso sem esmagar completamente a dinâmica da música. Quando bem ajustado, o resultado é uma 808 maior, mais presente e com muito mais impacto.

É justamente por isso que praticamente toda produção moderna de trap acaba utilizando algum tipo de clipping em alguma etapa da cadeia.


Nem toda 808 precisa de compressor

Esse talvez seja um dos maiores mitos da produção musical. Muita gente acredita que todo canal obrigatoriamente precisa de compressão. Na prática isso não faz sentido.

Grande parte das 808 atuais já possui uma dinâmica extremamente consistente. Muitas delas já vieram comprimidas durante a criação da própria amostra.

Adicionar outro compressor pode acabar retirando punch e tornando o grave sem vida. Sempre analise antes.

Se a dinâmica já está equilibrada, talvez seja melhor trabalhar apenas com equalização corretiva, saturação e clipping. Menos processamento quase sempre significa mais transparência.


Grave deve permanecer em mono

Outro erro bastante comum é abrir a imagem estéreo da 808. No papel isso pode até parecer interessante. Na prática costuma gerar diversos problemas.

As frequências mais graves precisam permanecer centralizadas. Quando elas são espalhadas pelo campo estéreo, aumentam as chances de cancelamentos de fase.

Além disso, muitos sistemas reproduzem graves praticamente em mono. Se existir incompatibilidade, parte da energia simplesmente desaparece. Por isso mantenho a região grave completamente centralizada.

Caso queira criar sensação de largura, prefiro trabalhar elementos harmônicos, nunca o subgrave. Não transforme sua sessão em uma coleção de plugins

Existe uma cultura muito forte de acreditar que uma cadeia enorme de processamento automaticamente produz uma mix profissional.

Minha experiência diz exatamente o contrário. Já abri sessões com dez plugins apenas na 808. Hoje muitas vezes utilizo apenas dois ou três.

Antes de inserir qualquer efeito, gosto de perguntar: Qual problema exatamente este plugin vai resolver?

Se não existe uma resposta clara, provavelmente ele não precisa estar ali. Cada plugin altera o áudio. Cada plugin adiciona alguma coloração. Cada plugin aumenta a chance de criar novos problemas.

Quanto mais simples for sua cadeia de processamento, maior será a facilidade para manter o controle sobre o resultado final.


Nunca mixe a 808 sozinha

Esse é um erro extremamente comum. Em solo, praticamente qualquer 808 pode parecer perfeita.

Mas música não é feita para ser ouvida em solo.

Ela precisa funcionar junto com:

  • kick;
  • caixa;
  • hi-hats;
  • melodias;
  • efeitos;
  • voz.


Muitas vezes uma equalização que parecia maravilhosa isoladamente destrói completamente o equilíbrio quando todos os instrumentos entram.

Sempre tome decisões ouvindo o contexto completo. A função da 808 não é impressionar sozinha. Ela precisa fortalecer toda a música.


Utilize músicas de referência

Uma das ferramentas mais poderosas da produção profissional é a comparação constante. Sempre gosto de importar uma ou duas músicas de referência para analisar.

Não faço isso para copiar. Faço para entender.

  • Será que minha 808 possui grave demais?
  • Será que falta punch?
  • Será que o equilíbrio tonal está próximo do padrão comercial?


Nosso ouvido se adapta muito rápido. Depois de horas ouvindo a mesma música, começamos a perder percepção. As referências funcionam como um ponto de equilíbrio.

Elas ajudam a recalibrar nossa audição durante toda a sessão.


Teste em diferentes sistemas de reprodução

A última etapa da minha mixagem nunca acontece apenas dentro do estúdio. Uma boa 808 precisa funcionar em qualquer lugar.

Por isso sempre gosto de testar em diferentes sistemas. Monitores de referência mostram detalhes. Fones revelam pequenos problemas. Caixas Bluetooth demonstram presença.

O carro continua sendo um excelente teste para subgrave. E até o alto-falante do celular fornece informações importantes sobre os harmônicos. O objetivo nunca é criar o grave mais forte do mundo.

O objetivo é criar uma música que mantenha impacto independentemente de onde ela seja reproduzida. Se sua 808 desaparece completamente fora do estúdio, existe algo que ainda pode ser melhorado.


Desenvolva seu próprio ouvido

Com o tempo percebi que a maior evolução de um produtor não acontece quando ele compra novos plugins. Ela acontece quando aprende a ouvir melhor.

Plugins mudam. Tendências mudam. Os beats evoluem. Mas um ouvido treinado continua sendo a ferramenta mais importante de qualquer engenheiro de mixagem.

Por isso passe mais tempo analisando músicas profissionais. Compare produções. Entenda por que determinadas decisões funcionam. Observe como diferentes produtores tratam suas 808s.

Esse tipo de estudo vale muito mais do que decorar configurações prontas.


Não existe preset mágico

Recebo frequentemente perguntas como:

  • "Qual é o melhor plugin para 808?"
  • "Qual preset você usa?"
  • "Qual frequência você aumenta?"


A resposta sempre decepciona algumas pessoas: Não existe.

Cada beat pede uma abordagem diferente. Cada kick possui características diferentes. Cada artista grava de uma maneira. Cada melodia ocupa regiões específicas do espectro.

A função do produtor não é repetir uma receita. É entender o contexto da música e tomar decisões inteligentes. É justamente isso que diferencia uma mix profissional de uma mix baseada apenas em presets.


Para concluir e você partir para prática: 

Depois de produzir milhares de músicas, cheguei a uma conclusão muito simples: a melhor mix de 808 raramente é a que possui mais processamento.

Na maioria das vezes, ela é justamente aquela que faz menos intervenções, mas faz cada uma delas com propósito.

Uma boa escolha de amostra, uma relação equilibrada entre kick e 808, equalizações corretivas bem pensadas, uma saturação leve para gerar harmônicos e um clipping bem dosado costumam entregar resultados muito mais profissionais do que cadeias enormes cheias de plugins.

A tecnologia evolui todos os anos, novos equipamentos surgem constantemente e as tendências de produção mudam com rapidez. No entanto, os princípios fundamentais da boa mixagem permanecem os mesmos: ouvir com atenção, entender o papel de cada elemento e evitar processamentos que não tragam benefícios reais para a música.

Se existe um conselho que eu gostaria de deixar para qualquer produtor é este: antes de procurar o próximo plugin milagroso, aprenda a tirar o máximo daquilo que você já possui. Uma boa decisão vale muito mais do que dez efeitos empilhados.

No fim das contas, a melhor 808 não é a mais alta, nem a mais distorcida. É aquela que sustenta toda a música, conversa perfeitamente com o kick e faz o ouvinte sentir o impacto sem nem perceber o trabalho que existe por trás da mixagem. Esse é o verdadeiro objetivo de uma produção profissional.

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Sobre o autor dessa matéria: 

Esta matéria foi elaborada por Duds MDB, produtor musical especializado em Rap, Trap e música urbana. Com mais de 2.000 produções musicais, atua há mais de 15 anos no mercado, trabalhando com artistas do Brasil e de Portugal nas áreas de produção musical, gravação, mixagem, masterização e criação de beats exclusivos. Conheça mais sobre seu trabalho acessando o site clicando aqui